sexta-feira, 19 de junho de 2009

 Por quê castrar os ferrets?

De acordo com determinação do IBAMA na portaria nº 163, de 08 de dezembro de 1998 (veja texto integral no pé deste post), ferrets são animais exóticos e só podem ser importados para o Brasil por empresa autorizada, castrados e com chip de identificação.

A medida tem como objetivos coibir o contrabando e a proliferação de criadouros clandestinos, impedir os maus tratos e o abandono de ferrets na natureza e, consequentemente, proteger a fauna brasileira, incluindo tanto as espécies que lhes serviriam como presas, em estado livre, quanto os mustelídeos selvagens nativos da América do Sul: o furão grande (Galictis vittata) e o furão pequeno (Galictis cuja).


Não há muito o que discutir quanto à necessidade de preservação do meio-ambiente. Casos pregressos de inserção irresponsável de animais em habitats dos quais não eram naturais, como o dos gatos domésticos na Austrália e do caramujo africano, aqui mesmo no Brasil, demonstram claramente quão sério pode ser seu impacto ambiental e como ele pode ter um alcance não somente ecológico como social e econômico.

Mas essa não é a única indicação da castração. As maiores organizações veterinárias e protetoras internacionais, como a WSPA (World Society for the Protection of Animals - Sociedade Mundial de Proteção Animal) e a AVMA (American Veterinary Medical Association - Associação Médico-Veterinária Americana) cada vez mais, apoiam-na como método para esterilização de animais de estimação – incluindo os ferrets –, por sua segurança técnica e os benefícios que traz para a saúde e o bem-estar do animal.

De fato, a castração deixa o bicho mais tranquilo, atenua a agressividade e o territorialismo, acaba com o desconforto do cio e os comportamentos de ordem sexual e previne, ou impede totalmente, uma série de problemas de saúde, como os cânceres de próstata, mama e útero e a piometra. Por isso, ela é um dos critérios essenciais ao moderno conceito de Posse Responsável e é indicada para todo animal para o qual não se pretenda uma função reprodutiva.

No caso dos ferrets, uma espécie apenas semi-domesticada que retém uma variedade de reações instintivas semelhantes aos de seus parentes selvagens, a castração é uma necessidade tanto por questões de saúde quanto como medida de segurança para o próprio animal e aqueles com quem ele conviver (sejam humanos ou outros animais).

Ferrets machos não castrados impõem desafios como animais de estimação pois apresentam o temperamento territorialista, agressivo e difícil de controlar inerente a todo mustelídeo. Ao contrário dos ferrets castrados – que são mansos, de menor porte e costumam conviver pacificamente com ferrets de ambos os sexos – eles reagem de forma extremamente violenta à presença de outros machos, resultando em disputas que podem levar à ferimentos graves ou mesmo a morte.

Além disso, os machos inteiros também marcam território com urina (como os gatos) e apresentam o odor almiscarado característico da espécie – que já representa algum problema mesmo nos ferrets castrados – ainda mais intenso, especialmente na época da reprodução. A verdade? Ferret inteiro FEDE. MUITO.

A situação das fêmeas é ainda pior pois, sendo animais de ovulação induzida, elas somente saem do cio após cruzar, em vez de passar por períodos férteis regulares. Se o cio for muito prolongado (ele pode durar meses), o hiperestrogenismo resultante pode chegar a níveis tóxicos e afetar a medula, suprimindo a produção de células vermelhas e matando a ferret por anemia aplástica. Além da cruza (que pode ser com machos inteiros ou vasectomizados/estéreis) a única forma de cortar o cio é química, através de injeções de hormônio, mas elas nem sempre têm o resultado desejado – cerca de 50% das fêmeas inteiras que não cruzam a cada cio acabam tendo um triste fim.

Os críticos da castração argumentam, com algum alarde, que ela seria uma forma de "mutilação". É uma corrente de pensamento um tanto simplista, que prioriza a mais do que evidente violência física inerente à extração dos órgãos sem avaliar seus benefícios a longo prazo. É bem verdade que qualquer castração executada em condições inadequadas e por veterinário despreparado pode mesmo resultar em sérios problemas imediatos e futuros para a saúde do animal, mas a incompetência de alguns "profissionais" nunca deve ser usada como parâmetro para questionar a eficácia de um procedimento médico, principalmente diante das inúmeras pesquisas que o abalizam.

No caso de animais de pequeno porte, como os ferrets, os principais riscos são a reação à anestesia (largamente minimizada pelos métodos anestésicos mais modernos) e a chance de que permaneça, no corpo do animal, algum resquício de tecido reprodutivo que possa, no futuro, vir a causar disfunções hormonais ou mesmo câncer.

Por fim: há, por parte da comunidade veterinária internacional, alguma especulação quanto à influência da castração – particularmente quando realizada antes antes da maturidade sexual, que ocorre por volta dos quatro meses de idade –, na incidência da lesão de adrenal e outras doenças relacionadas a disfunções hormonais. Castrar antes das 5 semanas de idade é uma prática bastante questionável adotada por muitas fazendas norte-americanas que criam ferrets para o comércio em pet shops (incluindo a Marshall, principal fornecedor para o Brasil), mas as pesquisas a respeito são tão inconclusivas e contraditórias que o assunto ainda deverá causar muita polêmica antes de trazer qualquer consequência para os ferrets "brasileiros". Em suma: nem temos como chorar sobre o leite derramado.

Fiquem tranquilos, pois: seus ferrets podem ter algumas "partes" a menos, mas não são menos felizes por causa disso!


Os vídeos a seguir (em inglês) trazem mais informações sobre
a castração de ferrets. Atenção: o segundo vídeo é "gráfico", pois acompanha
passo a passo uma cirurgia de ovariohisterectomia (extração de útero e ovários)
em uma ferret. Recomendo cautela a quem tiver um estômago mais fraco!






Finalmente, eis o texto integral da portaria nº 163:

MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE,
DOS RECURSOS HÍDRICOS E DA AMAZÔNIA LEGAL
INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE
E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS
PORTARIA Nº 163 ,DE 08 DE DEZEMBRO DE 1998


O PRESIDENTE DO INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS - IBAMA, no uso de suas atribuições previstas no Art. 24 do Decreto nº 78, de 05 de abril de 1991, e no Art. 83, inciso XIV, do Regimento Interno aprovado pela Portaria GM/MINTER nº 445, de 16 de agosto de 1989, e tendo em vista o Art. 225, § 1º; VII da Constituição Federal; o disposto na Lei nº 5.197, de 03 de janeiro de 1967, Lei nº 6.938 , de 31 de agosto de 1981, Lei nº 7.173, de 14 de dezembro de 1983, Lei nº 9.111, de 10 de outubro de 1995, Lei nº 9.605, 12 de fevereiro de 1998; Decreto nº 24.548, de 03 de julho de 1934 que aprovou o Regulamento do Serviço de Defesa Sanitária Animal; Portaria Ministerial do Ministério da Agricultura e do Abastecimento - MAA nº 49, de 11 de março de 1987; Portaria Ministerial nº 106 de 14 de novembro de 1991 e Portaria nº 74 de 07 de março de 1994; Decreto nº 76.623, de 17 de novembro de 1975 que promulgou a Convenção Internacional sobre Comércio das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção - CITES; Decreto Legislativo nº 2 de 1994; Resolução Conselho Nacional do Meio Ambiente - CONAMA nº 237, de 19 de dezembro de 1997, Portaria Normativa 113/97 de 25 de setembro de 1997; Portaria Normativa 131/97 de 3 de novembro de 1997 e em face ao contido no processo nº 02001.002408/96-93, RESOLVE:

Art. 1º- Fica excluido do artigo 31 ítem V (mamíferos da Ordem - Carnivora) da Portaria nº 93 de 07 de julho de 1998, D O U de 08 de julho de 1998, os espécimes de furão - Mustela putorius furo, para importação com finalidade comercial para a manutenção em cativeiro como animal de estimação.

Art. 2º- As pessoas jurídicas interessadas na importação dos espécimes objeto da presente Portaria, deverão estar registradas no IBAMA, segundo as normas da Portaria nº 93/98.

Art. 3º- As pessoas jurídicas registradas no IBAMA como Importador ou exportador de animais vivos, abatidos, partes produtos e subprodutos de Fauna, que desejarem importar/comercializar os espécimes objeto da Presente Portaria, deverão protocolizar requerimento e projeto técnico de importação e comercialização contendo:
a) dados do fornecedor (procedência);
b) declaração do fornecedor de que somente animais castrados serão exportados;
c) modus operandi de comercialização;
d) estimativa de importação anual.

Art. 4º- Os animais importados deverão necessariamente:
a) serem marcados com “microchip”;
b) estarem acompanhados, na importação, de Certificado de Saúde do país exportador;

Art. 5º- Os casos omissos nesta Portaria, serão dirimidos pela Diretoria de Ecossistemas.

Art. 6º- Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação no Diário Oficial da União.

EDUARDO DE SOUZA MARTINS

Presidente

Fuças do mesmo bando!



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Um comentário:

Ariadna disse...

Bom artigo.
Bastante esclarecedor.
obrigada!

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