Os "quase-enta" como eu lembrar-se-ão de Clube do Capitão Aza, programa infantil da extinta TV Tupi, nos anos 70. Interpretado pelo ator e policial federal (!) Wilson Vianna, o Capitão Aza – auto-intitulado "comandante-em-chefe das forças infantis desse Brasil" – tinha jeito (e discurso) de bom moço e trajava um indefectível uniforme de piloto no qual a pièce de résistance era o capacetão decorado com um "A" alado e encimado por um enorme visor escuro.
Claro que tudo isso parece inacreditavelmente cafona para os padrões atuais mas, naqueles tempos, o programa rapidamente conquistou um considerável público cativo, batendo os índices de audiência de seu concorrente direto, o Global Capitão Furacão. Até porque, ao contrário das apresentadoras platinum blondes acéfalas da atualidade, o Capitão Aza também apelava para os pais, ao transmitir valores como a boa educação, a amizade e o respeito aos mais velhos.
Coisas de uma época mais inocente (ou mais conservadora)...
Ao longo de seus cerca de seis anos de existência, Clube do Capitão Aza transmitiu diversas "pérolas" da teledramaturgia infanto-juvenil que, hoje, são nostalgicamente consideradas sine qua non para a cultura cult, como as séries (não tão) animadas dos super-heróis Marvel (Capitão América, Homem de Ferro, Thor, Hulk, Homem Aranha e Namor), os desenhos Pantera Cor de Rosa, Mr. Magoo e Robô Gigante, a "supermarionation" Thunderbirds e o notório, mas maravilhosamente kitsch, Batman de Adam West.
Mas, voltando à razão de ser deste tópico: parte do atrativo de Clube do Capitão Aza devia-se, obviamente, à sua ambientação "aeronáutica". Durante uma certa fase, ainda em preto e branco, o programa era apresentado do interior de um "helicóptero" – na verdade, nada mais do que uma cabine sem hélices que "voava" pela magia dos (d)efeitos especiais. Não que o realismo importasse: naquela época pré 2001 e Star Wars, mesmo o efeito mais "chulé" (ainda) era motivo de espanto, e qualquer eventual lacuna na verossimilhança do cenário era prontamente preenchida pela mui fértil (e pouquíssimamente exigente) imaginação dos telespectadores mirins.
As luzes do cenário se acenderam, alguém gritou "Gravando!" e o Capitão Aza começou a conversar comigo, destilando sua costumeira jovialidade. Perguntou sobre minha família (eu disse que meu primos eram meus irmãos mas, tudo bem), minhas brincadeiras preferidas e de quais desenhos eu mais gostava. Entretanto, só o que me importava era ir logo pro céu e voar por entre as nuvens, como ele fazia todos os dias com seus outros convidados!
Naquele dia, uma boa parte de minha capacidade para a credulidade perdeu-se além do horizonte, levada pelas hélices intangíveis daquele helicóptero de mentirinha. Culpa dos adultos presentes, que deviam ter-me informado que era tudo faz de conta.

