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sábado, 7 de maio de 2011

 Sobre café e blogs, ou: "Como o amor tudo perdoa."



O maridão, que é classificador e degustador, acaba de lançar um blog sobre café e cultura, o cafezinho et al*.

* Sim, a grafia está correta, embora eu tenha certeza de que haverá quem o chame de "cafezinho e tal".

Esposa apaixonada que sou, claro que não me furtei a colaborar com o design. Até porque, se depender de know-how sobre rubiáceas, o moço não poderá contar muito com a cara-metade: sempre preferi meus espressos cariocas e com adoçante (café aguado e doce, segundo já me instruiu um "passarinho", configura um verdadeiro pecado capital dentro do meio cafeeiro culto), e isso não parece em vias de mudar.

Meu lado nerd me garante, com uma convicção fincada em anos de conhecimentos adquiridos na ficção-científica, que certamente existe algum universo paralelo, por aí, no qual essa minha imperdoável faux pas será motivo para divórcio por "incompatibilidade de gênios".

Neste aqui, felizmente, o amor é lindo.

Leiam o cafezinho, a torra é boa!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

 Adeus, minha velhinha...


Ontem à noite, foi-se minha Drielzinha, aos oito anos e meio de idade. Uma vida longa, em termos de ferret – mais ou menos o equivalente a um cão que viva uns 20 anos.

Acho que posso dizer que foi, também, uma vida feliz. Neste mundo no qual tantos animais são abandonados, maltratados e vivem de forma deplorável, Driel foi uma "princesinha" profundamente amada, protegida e que recebeu sempre tudo de melhor. Pode ter sido uma jornada árdua, às vezes, mas qualquer dificuldade sempre foi superada por tudo o que ela me oferecia em troca.

Os animais, afinal, sabem retribuir de um jeito que está além da capacidade de qualquer ser humano.

Driel foi uma típica compra por impulso. Era a menorzinha de um lote que havia acabado de chegar na pet shop (na verdade, até hoje ainda não encontrei ferret menor ) e conquistou meu coração ao me receber com lambeijinhos, quando a peguei no colo. Como, na época, eu já tinha dois ferrets novinhos – meus dois primeiros, de forma que ainda estava engatinhando como "mãe" de mustelídeos –, contei até dez, resisti e fui almoçar mas... incentivada por uma caipirinha, acabei voltando à loja, de onde saí com uma caixa de papelão cheia de furos (o então marido, por sinal, havia simpatizado mais com um outro peludo – grandalhão e meio desengonçado – que também acabou indo parar lá em casa menos de um mês depois).

Chamei-a de Galadriel; o nome não poderia ter sido mais bem escolhido porque, o que tinha de pequeninia, ela tinha de voluntariosa, teimosa e corajosa, tal qual a rainha dos elfos do universo d'O Senhor dos Anéis". Driel sabia se fazer presente e dava "corridas" até mesmo no irmão grandalhão, o Ludo.

Lá pros quatro ou cinco anos de idade, ela mastigou uns pedaços de uma barata que entrou em casa pela janela e acabou muito doente. Foram mais de seis meses de "perrengue" em quarentena, tratando um sério problema intestinal causado pela contaminação por dois tipos de verme, duas bactérias e um fungo que colocaram até o veterinário "de quatro". Mas, a menina se recuperou e seguiu sua vidinha, como se nada tivesse acontecido.

Ano passado, começaram os problemas para respirar. Radiografias e ultra revelaram um princípio de câncer linfático. Comecei a dar os remédios e Drielzinha não somente enfrentou tudo bravamente como se recuperou, sempre alerta, alegre e querendo atenção.

Mas o câncer e a idade, inevitavelmente, cobrariam seu preço.

Neste fim de semana Driel, finalmente, decidiu que era hora de partir e fez o que todo ferret faz nesses momentos: deitou-se quietinha no canto dela, parou de comer e beber e ficou pacientemente esperando que São Francisco viesse guiá-la em direção à ponte do arco-iris. Ferrets são mesmo assim: tão estóicos que chegam a desesperar.

Ontem, por volta das 21:30, ela partiu, auxiliada pelas mãos carinhosas dos doutores Rodrigo e Bianca, da clínica Espaço Pet, que são sempre uma fonte de carinho, força, compreensão e solidariedade, em momentos como esse. A decisão de ajudar um animalzinho a partir é triste, dura e difícil, mas eu não podia deixar que minha peludinha sofresse mais.

Driel sobreviveu a seus irmãos Frodo, Merlin, Ludo, Sleepy e Kiko. Viu todos irem embora e permaneceu sempre do meu lado, transmitindo-me energia para suportar a saudade. Também acompanhou meu divórcio e a chegada dos gatos Lu, Lilica, Phoenix e Bastet, da cachorrinha Kira e dos ferrets Friga, Gandalf e Titânia, além do começo do segundo casamento. Foram oito anos e meio um tanto tempestuosos para mim, cheio de mudanças pessoais e profissionais; mas sua presença foi uma constante, sempre me servindo de bússola e porto seguro.

Missão cumprida, filha. Espero que você, aí onde está, saiba quantas vezes você e seus irmãos salvaram-me a vida e me deram forças para continuar.

Nunca mais os lambeijinhos no nariz.
Nunca mais as mordidinhas pedindo atenção.
Nunca mais o rabinho arrepiado pelo cafuné no cangote.
Nunca mais o "có-có-có" de alegria a saltitar pela casa.

Adeus, minha pequena. Mamãe te ama.

terça-feira, 21 de abril de 2009

 Causos de ferrets - II

 
Ludo – o ferret.

Se minha vida fosse um filme e cada um de meus bichos tivesse uma função narrativa, Ludo seria o comic relief. Grande, gordo e desengonçado como ele só, o pequeno era uma figura cômica por excelência – um verdadeiro "Jerry Lewis" em forma de ferret, sempre tropeçando e dando topadas nas paredes e nos móveis*.

* De fato, se um ser humano desse tantas cabeças por dia quanto um ferret, o número de atendimentos por traumatismo craniano, nas emergências dos hospitais, seria consideravelmente maior... Ferrets são muito cabeça dura – seja no sentido literal ou no figurado.

Ludo tornou-se personagem da minha história num dia ensolarado em que eu e meu ex-marido, satisfeitos após nos empanzinarmos de comida mineira em um restaurante próximo à pet shop, sucumbimos ao súbito impulso de adquirir mais um ferret. Naquele dia, entretanto, a sorte sorriu para a menorzinha dos quatro pequenos que então compartilhavam a diminuta gaiola da loja: Galadriel arrebatou meu coração ao receber-me com "lambeijinhos", muito embora meu ex-marido tenha-se apaixonado pelo "grandão".

Cerca de um mês depois, voltei à loja para comprar ração e o gorducho ainda estava lá, agora completamente sozinho e visivelmente obeso pela carência de exercício e cuidados durante seus quase seis meses de vida – certamente havia sido seguidamente preterido por não ser tão belo e esbelto quanto os demais de sua "remessa". Vê-lo naquela situação desesperadora pôs por terra qualquer dúvida de que também ele estava em meu destino, e pus-me a barganhar com o dono da loja por melhores condições de pagamento.

"Que nome você dará a ele?" – a vendedora perguntou, enquanto eu assinava o termo de responsabilidade exigido pelo IBAMA. Como meus bichos sempre me "informam" seus nomes, olhei bem fundo nos olhos do gorducho e imediatamente me veio à mente a personagem monstruosa, mas cheia de candura, do filme Labirinto. E foi assim que, minutos depois, Ludo seguiu para sua nova casa, escondido em uma grande caixa de papelão.
 
 Ludo, na versão do cinema. © The Jim Henson Company

Meu maior receio ao apresentar Ludo a seus "irmãos" foi a probabilidade de que acontecesse alguma dificuldade de adaptação. Afinal, Driel havia sido introduzida no ambiente há pouco tempo... Será que Frodo e Merlin aceitariam outro ferret, ainda por cima macho e quase adulto? Minha apreensão, entretanto, demonstrou-se totalmente infundada: os próprios pequenos se encarregaram das "apresentações formais" (foi uma cheiração de bumbum atroz – sempre imagino como seria se os humanos fizessem o mesmo...) e, antes do fim do dia, o novo membro da família já parecia plenamente à vontade em seu lar. E como ele estava feliz!*

* Os países de língua inglesa chamam a "risada" dos ferrets de "dook-dook" mas, na verdade, o som se parece mais com "có-có-có". É inacreditável, mas os ferrets cacarejam! E Ludo era uma "galinhazinha" muito tagarela...

No dia seguinte, como tudo corria bem, resolvemos mostrar a Ludo uma das brincadeiras preferidas da galerinha e recortamos uma "porta de rato" na caixa de papelão em que eu o havia trazido, para que eles pudessem disputar o posto de "rei da toca".

Jamais esquecerei a reação do pequeno ao ver-me aproximar com a caixa na mão: ele me lançou um olhar nitidamente apavorado, deu um piparote para trás e foi-se esconder, todo encolhido e tremendo, no canto mais distante da área de serviço. Imediatamente, compreendi: ele reconhecera a caixa em que havia sido transportado no dia anterior e achava que eu o levaria embora daquela nova casa de que tanto gostara!

Um relato como esse pode parecer duvidoso para quem não convive com ferrets. Mas, além possuir uma tremenda capacidade de observação, esses animaizinhos também são dotados de uma memória prodigiosa. E não foram poucas as vezes em que presenciei essas qualidades sendo postas em prática.

Frodo, meu primeiro ferret, tinha duas bolinhas de plush com guizo – seus brinquedos preferidos – que guardava invariavelmente no mesmo lugar: o segundo escaninho da esquerda para a direita, no bar. Sempre que o soltávamos na sala a primeira coisa que ele fazia era checar se as bolinhas continuavam lá*! Claro que esse poderia ser um mero comportamento condicionado – não fosse o fato dele ter feito exatamente a mesma coisa na primeira vez em que o soltamos depois de um período de alguns meses durante o qual a sala ficou interditada para os ferrets, por conta de uma reforma necessária no sofá.

* Vê-lo fazendo isso se tornou algo tão habitual, para mim, que as bolinhas continuaram no mesmo lugar por alguns anos após a partida do pequeno e só foram "desencantadas" outro dia, por um dos gatos!

Finalmente, eis um último causo, só para fechar este texto com "chave de ouro": nosso quarto, onde também costumávamos soltar os peludinhos, tinha uma cama do tipo americano. Uma noite, demos por falta de Merlin (sempre ele!) e fomos encontrá-lo dentro do colchão, passeando alegremente por entre as molas – ele e Frodo haviam feito um buraco de uns 15cm no forro da cama. Como colchões de molas são uma das principais causas mortis acidentais de ferrets, o quarto obviamente tornou-se território proibido até resolvermos o problema, seis meses depois.

Preciso contar o que os dois fizeram quando voltaram ao quarto?

quinta-feira, 16 de abril de 2009

 Alô, alô, Sumaré! Alô, alô, Embratel!


Um divertido bate-papo pelo MSN me transportou, de helicóptero, de volta a um dos momentos mais antológicos e cômicos da minha infância.

Os "quase-enta" como eu lembrar-se-ão de Clube do Capitão Aza, programa infantil da extinta TV Tupi, nos anos 70. Interpretado pelo ator e policial federal (!) Wilson Vianna, o Capitão Aza – auto-intitulado "comandante-em-chefe das forças infantis desse Brasil" – tinha jeito (e discurso) de bom moço e trajava um indefectível uniforme de piloto no qual a pièce de résistance era o capacetão decorado com um "A" alado e encimado por um enorme visor escuro.

Claro que tudo isso parece inacreditavelmente cafona para os padrões atuais mas, naqueles tempos, o programa rapidamente conquistou um considerável público cativo, batendo os índices de audiência de seu concorrente direto, o Global Capitão Furacão. Até porque, ao contrário das apresentadoras platinum blondes acéfalas da atualidade, o Capitão Aza também apelava para os pais, ao transmitir valores como a boa educação, a amizade e o respeito aos mais velhos.

Coisas de uma época mais inocente (ou mais conservadora)...

Ao longo de seus cerca de seis anos de existência, Clube do Capitão Aza transmitiu diversas "pérolas" da teledramaturgia infanto-juvenil que, hoje, são nostalgicamente consideradas sine qua non para a cultura cult, como as séries (não tão) animadas dos super-heróis Marvel (Capitão América, Homem de Ferro, Thor, Hulk, Homem Aranha e Namor), os desenhos Pantera Cor de Rosa, Mr. Magoo e Robô Gigante, a "supermarionation" Thunderbirds e o notório, mas maravilhosamente kitsch, Batman de Adam West.

Mas, voltando à razão de ser deste tópico: parte do atrativo de Clube do Capitão Aza devia-se, obviamente, à sua ambientação "aeronáutica". Durante uma certa fase, ainda em preto e branco, o programa era apresentado do interior de um "helicóptero" – na verdade, nada mais do que uma cabine sem hélices que "voava" pela magia dos (d)efeitos especiais. Não que o realismo importasse: naquela época pré 2001 e Star Wars, mesmo o efeito mais "chulé" (ainda) era motivo de espanto, e qualquer eventual lacuna na verossimilhança do cenário era prontamente preenchida pela mui fértil (e pouquíssimamente exigente) imaginação dos telespectadores mirins.

Para nós, aquele era um helicóptero de verdade.

Imaginem, então, a alegria que me acometeu quando meus pais disseram que eu visitaria o Capitão Aza e participaria, como convidada, de um dos episódios de seu show.

Eu iria voar de helicóptero! OBA!

Lembro-me claramente do galpão da TV Tupi, no bairro carioca da Urca. Era um prédio feio, velho, enorme e escuro que, para os meus olhinhos de criança, pareceu tão preto e branco quanto a imagem da TV na qual eu assistia o programa todos os dias. Mas eu esqueci tudo isso quando, ao fundo, avistei o maravilhoso "helicóptero" do Capitão Aza – uma visão de sonho.

A espera me pareceu infindável mas, eventualmente, fui chamada para as gravações. Então, alguma pessoa da produção pegou-me pela mão e fui ansiosamente conduzida para o "helicóptero", dentro do qual o Capitão Aza já me aguardava.


Pausa obrigatória para um momento de suspense.


Ok. Lá estava eu, na cabine do helicóptero, já estranhando a ausência das hélices (eu tinha apenas uns 4 ou 5 anos de idade, mas isso não significa que fosse ignorante). E, claro, nada dele levantar vôo.

As luzes do cenário se acenderam, alguém gritou "Gravando!" e o Capitão Aza começou a conversar comigo, destilando sua costumeira jovialidade. Perguntou sobre minha família (eu disse que meu primos eram meus irmãos mas, tudo bem), minhas brincadeiras preferidas e de quais desenhos eu mais gostava. Entretanto, só o que me importava era ir logo pro céu e voar por entre as nuvens, como ele fazia todos os dias com seus outros convidados!

Foi quando minha paciência acabou e soltei a bomba que desconcertou todos no estúdio e fez com que os patrocinadores fossem imediatamente chamados:


"Mas... Capitão Aza, cadê o helicóptero?"


Naquele dia, uma boa parte de minha capacidade para a credulidade perdeu-se além do horizonte, levada pelas hélices intangíveis daquele helicóptero de mentirinha. Culpa dos adultos presentes, que deviam ter-me informado que era tudo faz de conta.


quarta-feira, 1 de abril de 2009

 Causos de ferrets - I

Eis Merlin, em toda a sua glória (e língua).

O Fuça de Ferret 'tá mesmo ficando muito chique: já estou até recebendo "encomendas" de posts!

O Felipe, do blog Presente a limpo, me pediu algumas histórias de ferrets. Não podia ter-me solicitado uma pauta mais tranquila: esses peludinhos são experts contumazes na "Arte" de fazer "arte".

Um dos episódios mais antológicos aconteceu por conta de Merlin, o saudosos ferret marrom – ou, para usar a nomenclatura correta, "sable" – da foto que ilustra a barra lateral do Fuça. O pequeno era mesmo um azougue e vivia inventando novas traquinagens para aprontar, a ponto de eu e meu ex-marido o apelidarmos, carinhosamente, de Dr. Faz M****.

No começo (há uns bons 8 anos atrás) eram apenas os dois da foto, Merlin e Frodo. Naquela época, meus ferrets já ficavam soltos na área de serviço, com a porta da gaiola aberta para lhes garantir alguma liberdade, mas compartilhavam o espaço com um enorme – para as proporções de um ferret, principalmente – latão plástico de lixo.

Um belo dia, percebi que Merlin havia descoberto como escalar até o topo da gaiola e estava fazendo o latão de "ponte" até o tanque d'água. Fiquei preocupada, pois a faxineira o usava na limpeza da casa e algum detergente ou produto químico mais forte poderia deixar resíduos que, lambidos, certamente fariam mal ao pequeno.

O que fiz? Arrastei a lata para a extremidade oposta da área de serviço, bem longe do tanque, e tirei o problema da cabeça pois o considerei resolvido.

Uns dois dias depois, estava eu na cozinha, preparando um suco, e vejo Merlin subir na gaiola. Como sabia do que o peludim era capaz, resolvi observá-lo de longe e verificar como estava se adaptando às novas características de seu habitat.

O pequeno olhou para o tanque e olhou pro latão, lá do outro lado. Fez uns movimentos de cabeça, calculando a possibilidade de um salto e, demonstrando muito bom senso, desistiu. E, mais uma vez, olhou para o tanque e olhou pro latão com uma expressão, no rostinho, que eu só poderia chamar de "pensativa".

Foi então que, bem diante dos meus olhos, Merlin desceu da gaiola, foi até o latão (que, nesse dia, havia sido providencialmente esvaziado e estava muito mais leve do que de costume), o empurrou de volta para o lugar em que ficava anteriormente, subiu novamente na gaiola e entrou no tanque, exatamente como costumava fazer.

Diante de tamanha demonstração de superioridade intelectual, só me restava mesmo jogar a toalha e declarar a luta perdida por nocaute: no dia seguinte, a faxineira foi proibida de usar o tanque. Afinal de contas, minha casa tem banheira.

Fazer o quê?

Hoje, com quatro ferrets, o latão foi definitivamente expulso da área de serviço e se encontra... bem... no meio da cozinha (apartamento pequeno tem dessas coisas...). Vivo muito mais tranquila sabendo que sou EU quem divide espaço com o lixo: de certo que não é uma prática higiênica, mas me economiza em tranquilizantes.

sábado, 21 de março de 2009

 Criança tem cada uma...

Plena madrugada, mais de 35 anos atrás. Estava eu, ainda pequenininha, chorando sem parar, a plenos pulmões.

Minha irmã mais velha (sou temporona raspa do tacho!), desesperada, andava comigo no colo, para lá e para cá, sem saber o que fazer. Não era fralda suja. Não era fome. Nem gases, resfriado ou qualquer outro "incômodo" infantil.

Depois da centésima cantiga de nigar totalmente infrutífera (a criança e o boi da cara preta já haviam se tornado amigos, a essa altura), ela precisou recuperar as forças e passou a guarda a meu pai. Mas, a substituição de sua voz feminina – e um tanto desafinada – pela voz de tenor de papai não fez qualquer efeito.

Continuei berrando como se não houvesse amanhã, perfurando os tímpanos de todos na casa – e, com toda certeza, dos vizinhos – com a torturante estridência que somente as pregas vocais dos muito jovens são capazes de produzir.

A pergunta "O que foi, neném?" deve ter batido algum recorde de repetições, naquela noite.

As horas foram-se passando, uma após a outra, e eu ainda em prantos, firme, forte e sem demonstrar qualquer sinal de sono ou cansaço.


Lá pelas tantas, o sol já quase nascendo, meu pai perdeu a paciência. Afinal, é extremamente frustrante, para um pai amoroso, não conseguir oferecer conforto ao filho que chora.

Foi quando, olhando nos meus olhinhos de bebê com a expressão mais dura de que foi capaz, ele falou:

– Chega! O quê você quer, afinal?"

Quase imediatamente, parei de chorar e respondi, na minha voz ainda exitante de bebê:

– Encheeeeeer!



Sim, essa é uma história real.

domingo, 1 de março de 2009

 Um caso de exorcismo entomológico

Esta é Bastet, em raro momento zen budista.


Baseado em uma história real

Capítulo 1


Sábado à noite, calor excruciante. Depois do terceiro banho gelado do dia, toda perfumada e já trajada para dormir, decido ir à cozinha pegar um copo d'água. Da área de serviço, muito faceira, vem a gatinha mais nova, Bastet, trazendo uma coisa escura entre os dentes, logo depositada aos meus pés em sinal de reverência amorosa.


Era uma barata.

Das polpudas.

E bem viva.


Eu imaginava que, depois de minha recente desventura com essas "bolas-fora" da Criação, o Universo me daria alguma trégua. Mas, não: meus encontros com baratas precisam sempre ser embates traumáticos, dignos de um filme da série Alien. É como se minha entomofobia, seguindo a Lei de Murphy, agisse como um imã de situações cada vez mais esdrúxulas envolvendo essas criaturas*.

* E ainda há um agravante: a presença de felinos na casa, mui estapafuridamente, parece funcionar como um fator extraordinário de atração de animais invertebrados com tendências suicidas, porque percebi um considerável aumento no número de baratas, moscas varejeiras e outros artrópodes a invadirem minha residência, desde que resolvi entrar para o mundo da gatofilia.

Não havia qualquer motivo para que as coisas fugissem à regra, nessa ocasião.


O lado positivo de seguidas experiências com baratas* é que as sinapses que determinam o grau de histrionismo de nossas reações, em sua presença, são anestesiadas pela repetição. Depois do terceiro ou quarto duelo com uma dessas aberrações da Natureza, o pânico até vem (porque ele sempre vem, quando há baratas envolvidas), mas é precedido por ações mais lógicas do que simplesmente gritar e subir na primeira cadeira à mão.

* Só para tentar enxergar o lado cheio do copo.

Dessa vez, eu imediatamente agarrei a gatinha e, tirando proveito de minha cozinha americana, a atirei (literalmente) na sala, numa tentativa de evitar que a barata, até então ainda inteira, embora já meio perneta, se tornasse uma metade bem diante dos meus olhos.


A felina achou que eu estava brincando e voltou pra cozinha, toda saltitante.

A cena que se seguiu foi análoga a um daqueles momentos de replay na transmissão de jogos de futebol pela televisão, comigo capturando e defenestrando a gata na sala mais umas 5 vezes, antes de resolver trancá-la no banheiro. Enquanto isso, a barata, vendo na atenção que eu dava à gata io-io uma chance de permanecer com as pernas que ainda lhe restavam*, correu, de fininho, para debaixo da geladeira.

* Nota: baratas pernetas não mancam nem perdem velocidade de fuga.

Eis uma lição para o leitor: depois que uma barata se refugia sob um objeto de mobília pesado como uma geladeira, nada a tira de lá. Não adianta batucar, tentar fazer barulhos assustadores ou empestear o ambiente com algum spray de cheiro forte (eu tentei Lysoform, que sempre consegue me expulsar para algum outro cômodo da casa). A única forma de desentocar a bicharoca é arrastar o móvel, torcendo pra que ela não perceba o que você está fazendo e tente achar outro esconderijo na mesma direção dos seus pés.

A minha barata (a essa altura, já estávamos um tanto íntimas) conseguiu pensar em um lugar ainda mais bacana para se aboletar: o vão entre o batente da saída de serviço e a parede.

Fiquei ali parada uns bons minutos, esperando para ver se ela, pelo menos, colocaria a cabecinha de fora para me dar "Boa noite!", mas nada. Então, só me restou dar de ombros. Aproveitei que havia tido o trabalho de mover a geladeira para limpar o espaço por ela ocupado no chão da cozinha*, a empurrei de volta para o lugar e fui tomar outro banho gelado, antes de ir dormir no paraíso refrigerado do meu quarto.

* Que – nota para um futuro próximo – vem sendo convenientemente negligenciado pela minha faxineira.


Minhas orações nessa noite, claro, foram para que a monstrinha de 5 pernas desse um jeitinho de escapulir à fúria caçadora dos meus gatos, durante a madrugada, e desaparecesse para nunca mais voltar.



Capítulo 2 (e a saga continua!)

Quatro da manhã. Meu sexto sentido* começa a tilintar como louco e eu acordo, num sobressalto. Lembro-me de minha "visitante" e resolvo checar a cozinha.

*
Como o "sentido de aranha" de Peter Parker, ele sempre acusa situações de perigo: geralmente, quando um de meus bichos está "aprontando".

Encontro Bastet – que passou a noite
toda demonstrando suas qualidades de predadora nata, de tocaia em frente à geladeira – em momento de puro êxtase felino, a dar patadinhas divertidas na mocoronga, agora com ainda menos pernas e já meio estrebuchante. A burralda, em vez de deixar o apartamento pela saída de serviço, resolvera desafiar a morte uma última vez.

Não se pode negar que era um inseto de coragem. Ou muito insano.

Fui tomada de uma audacidade e uma sanha assassina incomuns para meu temperamento amante de animais e fiz uma coisa cujo mero conceito sempre me enojou profundamente: dei-lhe uma boa d'uma chinelada e acabei com seu sofrimento de vez, enviando sua alma para um lugar melhor (isso, obviamente, depende muito do ponto de vista).

O exorcismo dessa infeliz barata foi desvirginizante para mim pois, até então, eu nunca havia recorrido a esse tão usual método de eliminação de pragas domésticas. A distância entre a ponta de um chinelo e minha mão, simplesmente, sempre me pareceu muito curta para ser suficientemente segura...

Foi mais um passo na eliminação de uma fobia que vem me atormentando por toda a vida!
*

* É uma questão tão intensa que, quanto me separei, um de meus questionamentos mais imediatos foi: "E agora, quem mata as baratas?"

Pobre baratinha! Ao menos, tu viestes ao mundo para servir a um propósito nobre. Jamais sairás de minhas recordações!...


Epílogo

Bastet protestou veementemente quando limpei suas patinhas com Baby Wipes. Nenhum gato subirá na minha cama com "pés de barata", não senhora!

Uma vermifugação coletiva já está nos planos para a semana.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

 Mea culpa, mea maxima culpa

"Mas... onde é que fica o aeroporto, nessa cidade tão pequenininha?"

Eu, Tico e Teco* na cidade de Congonhas (MG).

O pior é que, antes mesmo d'eu finalizar a pergunta, meu cérebro acordou, assustado com a súbita queda na pressão neurônica, e já foi bronqueando: "Sua MONGA! O Aeroporto é em SÃO PAULO! SÃO PAU-LO!!!"

Mas aí já era tarde demais: o impulso nervoso já tinha chegado na língua, para júbilo dos amigos que me acompanhavam na viagem.








* É, eu também tenho os meus "lourônios". Felizmente, eles só dão as caras muito raramente.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

 Um sushi muito, muito caro

Foto de Kreesteenex3

Meu ex-marido é um indivíduo extremamente distraído e de péssima memória. Tanto que, por conta de seus frequentes ataques de esquecimento, minha tendência ao TOC cresceu exponencialmente e acabei desenvolvendo certos "rituais" de segurança completamente obsessivos – antes de sair, por exemplo, preciso checar os registros de gás e as trancas das portas e janelas pelo menos duas vezes – que perduram até hoje, quase quatro anos após a separação*.

* Antes que o leitor me faça acusações, é bom dizer que essa não é – como acontece tantas vezes – uma afirmação caluniosa resultante de trauma devido ao divórcio (até porque eu não sou um ser humano dado a rancores). Ele mesmo costuma dizer que o verbo "esquecer" jamais deveria ser conjugado junto a seu nome, pela redundância de significados!

Essa sua característica singular deu origem a diversos momentos de anedotário memoráveis. Um deles aconteceu em um restaurante japonês, durante os primórdios da febre do rodízio de sushi, e foi testemunhado pelo meu grande amigo , do blog Pedaço de Mim.

Sentamo-nos à mesa e, depois de rápida consulta ao cardápio, resolvemos pedir o rodízio, mais em conta no preço e com uma variedade de opções que atenderia o gosto dos três.

As regras do rodízio estabeleciam que qualquer peça de sushi ou sashimi pedida adicionalmente àquelas da primeira barca servida significaria um acréscimo de R$ 0,60 à conta, caso fosse devolvida. Não me importei, pois a quantidade de sushi inicial era mais do que suficiente para nós três e, de qualquer forma, um ou dois reais a mais a pagar não feririam tanto assim os nossos bolsos.

Um sushi aqui, um pouco de papo ali, um sashimi acolá, eis que eu e Má nos vimos totalmente empanzinados. Enquanto isso, meu ex-marido (que adora comida japonesa) ia glutonamente botando para dentro uma peça após a outra: um a um, os sushis de camarão, atum e salmão, os hot rolls, salmon skins e califórnias foram sumindo da barca, até que restou apenas um punhado de cinco ou seis.

Foi nessa hora que olhei para ele e percebi que estava com "cara de quem não quer mais". Na verdade, só lhe faltava começar a esconder sushis nos bolsos, porque seu jeito era todo de quem já se encontrava totalmente enauseado, comendo apenas para não deixar nenhuma sobra no prato, digo, barca.

"Se você está tão cheio, por que não para de comer?" – perguntei.

Então, ouvimos a frase que entrou para a história:

"Você tá maluca? Cada sushi que sobrar vai custar sessenta REAIS!"

Sem mais comentários.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

 Coisas que só o karma explica!

Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Eventos recentes ofereceram-me provas diversas de que este é um ditado completamente equivocado, mas a noção de que existe um "Inferno Astral" a espera de cada um – e de que essa é a minha vez, mas passará – vem-me mantendo de pé (ainda que meio aos trancos e barrancos). Me pergunto, no entanto, se o Universo não tem exagerado um "tantinho" no exercício da ironia, margeando o sadismo... Porque assim, também, já está demais!...

ODEIO baratas. Se Deus existe e a Criação é sua Obra, as baratas certamente são a) Uma declaração de que o Diabo também é real ou b) Uma prova de que ELE(A), em toda sua onipotência/onisciência*, é um(a) tremendo(a) d'um(a) sacana. Se, algum dia, a Terra for invadida por alienígenas insetóides (muito improvável, considerando as teorias sobre os "grays" e os "reptilianos" que apenas os ufófilos/ufólogos de plantão entendem), eles certamente terão cara de barata, como o alien do filme Homens de Preto. Porque não há criatura mais nojenta, desagradável, incômoda e inconveniente, na face da Terra, do que a "boa" e velha Periplaneta americana (os mosquitos até chegam perto, mas ainda perdem – mesmo fazendo um barulhinho mais irritante).

* Nota metafísica pertinente: o conceito de "onisciência divina" foge em muito à minha compreensão pois, se alguém é "onisciente", a ignorância certamente é algo que lhe escapa. Como pode alguém conhecer TUDO, se não sabe o que é "desconhecer"? Mas... voltemos ao assunto em pauta:

Dormia eu tranquilamente, noite passada, quando fui acordada por um pressentimento (estranhamente, meu sexto sentido parece funcionar em conluio com o Universo e nunca me informa qualquer coisa de realmente agradável ou útil, como os números da Mega Sena). Sobressaltada, resolvi verificar se os ferrets (que vivem soltos em minha área de serviço) passavam bem, e lá estava ELA: uma "bela" d'uma nojentinha passeando alegremente pra lá e pra cá, totalmente alheia ao fato de que, MUITO perto, havia oito grandes predadores sequiosos por uma boa caçada (claro que estou falando dos ferrets e dos gatos, não de mim – se EU pudesse escolher, jamais veria uma outra barata na vida).

Qualquer dono de gato minimamente experiente sabe perfeitamente que baratas são um "brinquedo" maravilhoso. Elas se movem depressa – que diversão! – e têm um "aroma" que somente os mamíferos predadores mais bem equipados (coisa que os humanos já deixaram de ser há tempos) conseguem apreciar. Quem tem gatos sabe, também, que baratas dão ótimos PRESENTES para os donos – logo, lá fui eu, às 3:00 da matina, matar a "mardita" antes que alguém resolvesse me agraciar com a visão matutina de um cadáver fresquinho no travesseiro, ao lado da minha cabeça.

Tentem não rir ao imaginar a cena: eu, sonolenta e descabelada, de camisola, tentando exterminar o monstro com uma vassoura* enquanto afastava os gatos (altamente instigados a exercitar seus instintos predatórios) com um dos pés. A tarefa me tomou quase uma hora pois, mesmo depois de finalmente atordoar a praga (porque, claro, sempre sobra pelo menos uma "perninha" estrebuchante, nem que seja só para nos criar ânsia de vômito), ainda tive que lavar toda a área de serviço com desinfetante veterinário e tomar um bom banho pra espantar a sensação de asco de minh'alma.

* Nota: ao contrário do que relata o imaginário popular, vassouras são péssimas armas anti-baratas.

Sei que não sou muito flor que se cheire e devo ter cometido minha cota de atrocidades em outras encarnações (frequentemente, tenho a sensação extrema de que fui Kublai Khan), mas acho que meu karma já está exagerando na dose. Pra arrematar a piada, depois do "safari" noturno, ainda acordei e encontrei os restos mortais de uma OUTRA barata (já meio coberta por uma legião de formigas famintas) bem no meio da minha sala*. As Nornes, a essa altura, devem estar rolando de rir.

* Só pra registrar, antes que me tachem de "porquinha": todas essas baratas são oriundas de uma obra que está sendo feita no apartamento vizinho e entram em minha casa pela janela. Não tenho qualquer controle sobre a invasão!

Se bem que podia ser MUITO pior: meu travesseiro, pelo menos, continua incólume.

P.S. - Quem mais aí se lembra da baratinha do Rodox?